terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maurício Baia / Rui Santos



Não tenho dados concretos e exaustivos acerca dos tempos de antena na televisão portuguesa, mas creio que não estarei longe da verdade se afirmar que Rui Santos é a personalidade da sociedade portuguesa que ocupa maior espaço no horário televisivo. Vou repetir isto, não vá o leitor desleixar-se no remanso da blogosfera: o Rui Santos é a personalidade que, em Portugal, frui do maior espaço público para expressar as suas opiniões. É que é mesmo o Rui Santos! Se souberem de outra pessoa que logra mais tempo para expor, semanalmente, as suas ideias e opiniões a uma plateia tão extensa, façam o favor de me contatar. É que nem o Marcelo Rebelo de Sousa!
Há muitos fatos reveladores no modo como os dispositivos políticos de uma sociedade funcionam, mas talvez nenhum seja tão premente como este. É um pouco como se exigíssemos um aforismo do género: “Diz-nos quem fala e dir-te-ei em que país vives.”.  Em Portugal, e lamento se vos enfado com repetições tão dramáticas, quem detém o maior espaço público de opinião é o Rui Santos. É caso para perguntar: “Mas que raio de democracia é esta?”.
Porque é que acontece isto? Como é que um simples jornalista desportivo consegue prender uma plateia considerável em frente da televisão, praticamente sem reportagens que o animem, de rubricas que o sustentem, de coisa que o valha que nos distraia da sua presença? Até o Pacheco Pereira necessita de apelar à sua “dinamite cerebral” e quejandos artifícios cénicos para nos prender a atenção. Mas não o Rui Santos. O Rui Santos limita-se a falar.
Façam a experiência. Cheguem a casa, sentem-se numa cadeira e comecem a debitar opiniões acerca do que quer que seja, e verão que não conseguem com a família aquilo que o Rui Santos consegue com uma percentagem elevada da população portuguesa: prender-lhes a atenção. O Rui Santos consegue com anónimos do país inteiro, aquilo que ninguém consegue com a família e que poucos (uma elite privilegiada) conseguem com o cônjuge: fazer-se ouvir! É bem provável, aliás, que muitos de vocês já tenham sugerido silêncio à digníssima esposa para ouvir com mais propriedade o Sr. Rui Santos informar-vos há quantos dias, meses e horas está Portugal sem a puta da Casa das Transferências ou o raio que o parta!

sábado, 10 de novembro de 2012

Mark Wahlberg/John Cena



 

 

Disse Lobo Antunes, numa qualquer entrevista, que um homem começa a pensar na sua finitude no momento em que assume a responsabilidade de atender o telefone ou a porta, isto é, quando o pai, morrendo, depõe, no filho, para além dos bens materiais, a herança da mortalidade. Uma espécie de passagem de testemunho, entenda-se: “Agora atendes o telefone. És o homem da casa. És mortal!”.
Num determinado sentido, a possibilidade da morte é um “faz-te um homem!”, por oposição à ingenuidade dos sonhos da juventude; sonhos de imortalidade, de infindos projectos e de possibilidades ilimitadas. A única impossibilidade é mesmo a da morte.
A juventude é marcada tanto pela força dos ideais como pela inconsciência – mais ou menos justificada – da sua finitude. É talvez por esse motivo que Bernard Shaw dizia que a juventude é desperdiçada nos jovens; talvez porque a sua vitalidade provém da ilusão da imortalidade quando é a consciência do fim e dos limites o motor de todo o movimento criativo.
Serve isto para dizer que é possível que a imaginação e a criação tomem impulso no medo.  No filme Madadayo, de Akira Kurosawa, explica um mestre aos seus alunos que o medo é um efeito próprio da imaginação. Porque é que, sendo adulto, se tem medo do escuro? Porque aquele que se põe a adivinhar o que está no meio das sombras tem medo, criando entidades que não existem senão no fulgor do seu poder criativo. Diríamos, portanto, que a imaginação é proporcional ao medo. Torna-se compreensível, por conseguinete, a imperativa introdutória de Altur Albarrán: “Tenha medo! Tenha muito medo!” aos seus vídeos sem-sentido e desprovidos de interesse, isto é, “Eu sei que isto é uma seca e que não acrescenta nada à sua vida, mas faça lá o favor de se deixar levar pela imaginação.”.
Dou por concluído este exercício pseudo-filosófico com o último filme de Mark Wahlberg. Em Ted,  a personagem do actor americano vive amedrontada com trovões, na presença dos quais se abraça ao seu ursinho falante para executarem um ritual infanto-pornográfico através de uma cantiga criptobuéréré. Este medo irracional e primitivo dos trovões – diríamos, neste caso, próprio da juventude – termina no preciso momento em que John Bennett e Ted se afastam, isto é, quando aquele deixa de ser uma criança dependente do seu urso de peluche para, eventualmente, se transformar num homem.
Como podem constatar através deste exercício manhoso de semiótica, o processo inverte-se: o adulto é aquele que, perdendo o medo, perde a imaginação, faz-se homem, torna-se consciente da sua finitude e, enfim, autoriza um género de contraversão do aforismo de Shaw. O que parece manter-se, contudo, é a associação do medo a um poder imaginativo. Enquanto se tem medo, a vitalidade criativa floresce e permanece. Ela finda quando o homem se torna num João Sem Medo, sem capacidade de ver para além do visível. É por isso que há pessoas que não entendem ou sequer sentem a arte ou o desporto. Não vêem senão uma mulher a ter um ataque epiléptico nas danças contemporâneas ou um homem a correr atrás de uma bola num campo de futebol. Vêem apenas o visível. Para se gostar de Wrestling não é necessário senão isto: ter medo, ter muito medo!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pavilhão Atlântico / Senado Galático

Numa época em que bandeiras içadas de pernas para o ar surgem na máxima potências das suas condições de possibilidade, falar de um edifício que se pretende uma nave espacial albergando o cavername invertido de uma nau quinhentista parece, no mínimo, apropriado. Pelo menos foi essa a intenção dos criadores do Pavilhão Atlântico: representar, simbolicamente, a Epopeia dos Descobrimentos, através do travejamento em madeira que sustenta a cobertura do dito pavilhão. Assim, no decurso de todos estes tristes anos, ali se pôde ouvir tanto as deliberações dos capitães do mar e as canções de Dave Matthews, como a chusma a cantar o “Ai Destino” do Tony. No fundo, Portugal é realmente isto: a noite de Dédalo, o primeiro homem-pássaro, e a noite de Tony, o último “homem-pássara”; aquela pássara das quarentonas divorciadas que enxameiam as plateias do Secret Story e lêem a Maria enquanto esperam pelas naves da STCP. É certo que a chusma de outros tempos sofreu as ignomínias das elites. Mas se nessa época se passava fome, era pelo menos por um ideal universal: a descoberta das índias, a demanda do Preste João e a criação do caril, o levantar do véu do continente americano e o celular das periguetes de Fortaleza. Hoje, a chusma que somos nós, se padece as infâmias da troika, é só por um real individualista: um exército de clones sem o 1 de Dezembro nem o 5 de Outubro a preservar os jactos dos que têm demasiada testosterona para serem apenas violadores. “So procreate and pay your taxes”, assim canta Andrew Bird. Nos tempos estranhos que são os nossos, eu diria: “Que a força esteja contigo”; mas de pouco adianta o optimismo geek. A força está com o Jardim Gonçalves.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Jeffrey Tambor / Dr. Phil




É curioso constatar – eu, pelo menos, assim o julgo – como os médicos se tornaram nos padres da modernidade. A imaculabilidade da bata substituiu a dignidade da batina, e os conselhos medievais sobre os cuidados a ter com a alma – cuidados esses que, sem dúvida, pressupunham outros tantos cuidados com o corpo – deram lugar a mil exortações tendo em vista a perfectibilidade do corpo – o que subentende, naturalmente, um sem-número de admoestações atinentes à modelar condução da alma. Há uns tempos submeti-me à imprudência de uma consulta médica e deparei-me com a seguinte questão avançada pelo «profissional de saúde»: “O senhor anda na má vida?”.
Os exames médicos são sempre indiscretos e levianamente impertinentes. Os aparelhos que nos descem pela garganta ou que nos sobem pelo cú são sempre precedidos de mil inquirições sobre as nossas vidas, os nossos vícios, as nossas namoradas ou namorados, os nossos horários, a nossa profissão, o nosso ócio, as nossas pequenas e grandes dores, os nossos hábitos mais íntimos e as nossas partes mais recônditas. Quantas vezes defecamos, quantas vezes urinamos, se temos ou não muitas parceiras sexuais – seja lá o que for para o médico o conceito de “muitas”, que eu temo que seja, de facto, demasiado ambicioso para o meu curto entendimento. E a reverência com que encaramos os médicos, a solicitude com que aceitamos, sem mácula ou sombra de hesitação, todas as suas recomendações enquanto ele nos enfia o grosso indicador pelo reto, apenas é comparável à antiga beatitude dos acólitos da igreja que foram todos os nossos avós para com os padres e diáconos da santa madre católica, apostólica romana. Ninguém ousa desafiar a autoridade medical e a ideologia clínica exalando o odor do formol. Eu próprio, diante da pergunta do médico, apenas consegui balbuciar um tímido: “Como? Não percebi…” quando, na verdade, a minha mente ou alma – chamem-lhe o que quiserem – devolvia o eco de um profundo e cavado: “Na má vida? Quem me dera!”. Trouxesse-me ela a morte!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Agostinho da Silva / Max Von Sydow



Alguém, um dia, – um sujeito que resolveu irritar um filósofo com as interrupções maquinais de uma câmara de filmar manhosa – perguntou ao Agostinho da Silva o que pensava da morte. Respondeu o filósofo que da morte nada sabia, e o caso dava-se por uma razão muito simples: ainda não morrera para o saber; que o deixassem morrer primeiro e ele, logo depois, se pudesse, viria cá baixo informar os mais curiosos. Ao Derrida perguntaram-lhe – também diante das câmaras, vá-se lá saber a importância deste denominador comum – o que pensava ele do amor. O francês não pediu que lhe deixassem experimentar a coisa; exigiu que lhe colocassem uma pergunta mais recta e objectiva, criticando esse costume muito americano de se falar por tópicos. Diga-me lá qualquer coisa sobre a morte, depois o amor, agora a felicidade e a seguir a angústia.
Lembrar-se-ão do filme «O Sétimo Selo», de Ingmar Bergman, em que a personagem de Max Von Sydow jogava xadrez com a morte. Nada obsta a que um sueco se lembre de pôr um cavaleiro medieval a jogar com a morte um jogo que é mais tiro e queda do que as cantigas do Vitinho. Os nórdicos são muito destas elucubrações, desta prestidigitação indolente e sonolenta, própria dos existencialismos de Kierkegaard. Nada a opor. Se falamos da morte, a melhor forma de falar dela é mesmo ter vontade de morrer, se possível morrer, e depois voltar, como pretendia o Agostinho da Silva, que entretanto não voltou e parece-me que apenas porque, das duas uma, ou não há vida para além da morte, ou o pessoal do além é fuinha o suficiente para impedir o homem de vir por aí abaixo. Uns desmancha-prazeres; ou empata-fodas, para ser mais prosaico. São como aquelas pessoas que usam o Facebook só para nos declarar a sua inefável felicidade; uma fotografia de um pôr-do-sol e a legenda inevitável: “Hoje esteve um lindo dia de praia!”. Desconheço o que pensará o caríssimo leitor destas pessoas. Eu cá acho que deviam morrer. Se a corja lá do alto anda a impedir os bons de virem cá baixo porem-nos bem-dispostos, todos estes que não nos deixam fruir do luto das nossas vidas mesquinhas podiam ir-lhes fazer companhia.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Kevin Kline / Brady Barr



Diz-se que o poder é afrodisíaco; o substantivo mais do que o verbo, pois é provável que o querer seja mais afrodisíaco do que o poder. Mas o poder não é apenas a segurança do púlpito e do escritório no último andar de um fálico Empire State Bulding. O poder é também o risco de sucumbir, de pagar a arrogância com a própria vida, se necessário for. No que nos respeita, havemos de invejar - ao jeito do pecado mortal - todos aqueles cuja profissão lhes basta para incitar e excitar a curiosidade das mulheres. Como hipótese limite, havemos mesmo de invejar todos aqueles que simplesmente são felizes. Adiante. Os actores não necessitarão de se revelar como tais. Se o são bem se poderão escusar ao esclarecimento, dado que as redundâncias se assinalam, sobretudo, pela sua esterilidade. Com que soberba e emproamento não o comunicarão os biólogos, sobretudo aqueles cujo objecto de estudo são os animais selvagens e perigosos?
- Eu sou biólogo…
- Ah sim? E qual é a sua área de investigação?
- Os tubarões-tigre…
- Mas isso deve ser perigosíssimo…
- Tem os seus dias…
Sempre com reticências, evidentemente. Todas as respostas reticentes são afrodisíacas. E não o são apenas por manterem as coisas em aberto. Elas resistem às qualificações definitivas e, sobretudo, prometem. Mas o que prometem não é um mundo à la Lady Gaga, onde as pessoas são livres, felizes, e onde não há sombra nem recôndito onde se escondam as perversidades e as patologias modernas; é a promessa de um “já te conto” manhoso; um conto que se conta sempre de outra forma. Um conto que desvenda e oculta. Como se o biólogo especialista em crocodilos carregasse, de alguma forma, fosse ela qual fosse, o toque do casaco da personagem de Nicolas Cage no filme de David Lynch Coração Selvagem, possivelmente o seu filme mais afrodisíaco.
- Sou biólogo…
- Ah sim? E qual é a sua área de investigação?
- Crocodilos…
- Que interessante! Mas isso deve ser perigosíssimo…
- Há animais bem mais perigosos…
- Hum… Fale-me um pouco mais disso…
E o resto, já se sabe, é conversa.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ana Gomes / Dona Júlia




Escreveu Francis Bacon qualquer coisa como isto (vou fingir que cito de memória): O espírito humano é naturalmente levado a supor que há nas coisas mais ordem e semelhança do que as que realmente nelas encontra; e, posto que a Natureza esteja cheia de excepções e de diferenças, por toda a parte o espírito vê harmonia, acordo e similitude. Daí a ilusão de que todos os corpos celestes descrevem, ao mover-se, círculos perfeitos. A estas ilusões chamava-lhes Francis Bacon Ídolos da Tribo.
Já tivemos oportunidade de o dizer: a semelhança não exige uma correspondência de grau ou uma ausência de desnível. Supomos que poderíamos encontrar dois seres semelhantes na história do feio e na história do belo. Se tratássemos, neste espaço, de questões importantes, sem dúvida que a indispensabilidade da semelhança suscitaria reflexões de carácter epistemológico. Talvez chegássemos à conclusão que somos mais clássicos do que modernos; e a verdade é que não o concluiríamos sem grande pesar. Enfim, conversa para outros blogs. No que nos diz respeito, estaremos mais próximos da bijuteria ruidosa da dona Júlia do que do clangor neurasténico da Ana Gomes, e o Portas que o diga. No fundo, trata-se sempre do mesmo princípio, embora, talvez, quem sabe (?), com cambiantes diferentes (mas, afinal, quão diferentes?). Imaginar a dona Júlia a falar de escândalos sexuais, a piscar o olho às invectivas sub-reptícias a Portas e a Coissoró, e a advogar, pasme-se, a doutrina moral burguesa, não será um exercício tão difícil quanto isso. Convenhamos, contudo, que dizer o que quer que seja em Estrasburgo traz uma finesse que Carnaxide não pode dar, muito embora por lá passe a fina-flor da sociedade portuguesa para aferir a quem pertence a vitória deste ou daquele debate. Continuamos com os desníveis, evidentemente; mas eles não se furtam à semelhança. Ou então estamos condenados pelos Ídolos da Tribo. Não obstante, a nossa semelhança não é da ordem. É sempre a semelhança da desordem, o ténue desnível do caos. A roncaria da Júlia pode ser diferente dessoutra da Ana, mas elas guardam um fundo de semelhança; e é no fundo que as coisas sempre começam.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Natalie Portman / Sarah Wayne Callies



James Wolcott, crítico da Vanity Fair, confessou o horror que sentiu ao ver Black Swann; não se coibiu mesmo de avançar com o exemplo de uma amiga, bailarina profissional, também ela chocada com o tratamento a que a sua bela arte foi sujeita no filme de Darren Aronofsky. É como se, de repente, o ballet fosse mais do que o cristianismo acossado em «A Última Tentação de Cristo», estivesse acima do pugilismo de «O Touro Enraivecido» ou não admitisse as ingerências mais ou menos hollywoodescas a que, de uma forma ou de outra, estão sujeitos os mais variados sectores de actividade ou formas de vida. Também o insuspeito «I Love You Phillip Morris» se prestou ao mesmo género de críticas provenientes dos que não viram no filme mais do que uma súmula de clichés acerca do que quer que para nós seja a homossexualidade. Imagino mesmo que alguns extraterrestres se tenham insurgiu contra o retrato ultrajante proposto por nomes como Spielberg, Orson Welles, Tim Burton, James Cameron, entre outros.
O que dizer então de uma série como Prison Break? Os polícias sentir-se-ão vexados, os governantes caluniados, e, pior do que tudo, os presidiários sentir-se-ão inopinadamente postos a ridículo, excedidos por um arquitecto que se enfeita à Raúl Meireles e que, escapando, a um tempo, a toda a série de estorvos do poder estatal e marginal, ainda arranja um tempinho para comer a boazona lá do sítio. Como se nós acreditássemos que há mulheres daquelas em lugares onde os homens se comem uns aos outros…

sábado, 29 de janeiro de 2011

The Box / HAL 9000



Há algo de perturbante no translúcido. O vidro, por exemplo, quando lustroso e ovalado sugere-nos sempre um mundo tecnologicamente evoluído. Se lhe acrescentarmos uma luz ou um tom avermelhado, eis o futuro nas nossas mãos. É difícil explicar porque é que certas substâncias, cores, corpos, formas ou tons nos indicam ou se insinuam como o garante de um estado de coisas qualquer. Porque é que o branco se implantou na ciência? Talvez por denotar pureza, expurgação do que quer que seja. Os cientistas, os médicos, todos eles usam bata branca. E nos anúncios de detergentes, o homem que veste bata branca está autorizado a dizer o que lhe apetece. Vistam bata branca em casa e digam às vossas esposas que querem fazer um ménage a trois e logo tomarão consciência do poder do laboratório.
É por isso que ninguém confia nos anúncios da Calgon, e são, afinal, as máquinas de lavar roupa que continuam a sofrer com a nossa instintiva adequação à simbologia das cores. Naquela marca, ainda ninguém percebeu que a Verdade veste branco. O problema daqueles homenzinhos que nos vêm falar do calcário não é o facto de serem piores actores do que o saudoso Max, o cão polícia. É mesmo por vestirem de azul.

Pedro Namora / João Baião / Durão Barroso





Enfim uma tripla; torna mais fácil o jogo que é barato e dá milhões.
Não me perguntem porquê, mas há algo que liga estes três homens. Não é pelo facto de eu não o saber explicar que vos peço que não me perguntem. É simplesmente porque me exigiria um esforço que não estou disposto a despender. Basta olhar para os rostos para nos apercebermos que, pois sim, talvez eles não sejam assim tão parecidos, mas, no fundo, não é necessário que pisquemos o olho uns aos outros para chegarmos lá, a esse lugar onde se dá o nosso comum acordo. É ou não é assim? Façam lá o favor de consentir que há um factor comum entre estes homens que se há-de tornar no nosso. Esta é a nossa partilha.
Estou consciente que poderíamos distender indefinidamente esta cadeia. Há sempre alguém que guarda o traço do comum partilhado por esse rosto mais próximo. Talvez sejamos todos parecidos uns com os outros.
A genética, mais do que Freud, explica. A genética, hoje, explica tudo. É a genética e o facto de nos esquecermos que o adultério sempre adultera todas as nossas contas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Adelino Granja / Oliveira Costa



É impressão minha ou é o mesmo gajo que anda a galgar entre o «Caso BPN» e a «Casa Pia»? Já alguém os viu juntos?
Responder-me-ão: «Ah pois… o Pedro Namora também é parecido com o João Baião, que se saiba nunca estiveram juntos, e isso não significa que sejam a mesma pessoa.»
Claro que não, caríssimos. O João Baião jamais conseguiria apresentar o "Portugal no Coração" de tarde e mandar bitaites sobre o processo Casa Pia à noite.
Mas os indivíduos aqui apresentados como sendo presumivelmente a mesma pessoa são de outra estirpe. Morenos, magros como se talhados em madeira, lentos e pacientes, camaleónicos; um, arguido no caso de Porto Rico, outro, ex-casapiano advogado de Joel, também este casapiano e alegada vítima de pedofilia.
Dir-me-ão: “Nunca vês senão aquém das aparências. Então não se nota perfeitamente que o Adelino Granja é mais magro? Repara nas maçãs do rosto e nas covas pronunciadas de um e na palidez mal dissimulada de outro.”.
Admitamos então a seguinte hipótese: não é perfeitamente crível que o indivíduo em questão se atafulhe de bolas de Berlim para protagonizar o papel de banqueiro e se submeta a uma dieta holo-cáustica para dar credibilidade à personagem de advogado ex-casapiano?
Aqui para nós que ninguém nos lê: o que prova, sem contestação, que o Bibi é, também ele, um actor nas mãos de encenadores bem-intencionados? Obviamente o facto de ter passado a usar óculos nas entrevistas. Alguém pensou que lhe dava mais credibilidade. É fácil imaginar a sugestão de um iluminado: «Olha lá! E se puséssemos uns óculos ao gajo? Não achas que lhe dava mais credibilidade?».
Eu digo que ainda falta alguma coisa; atafulhem-no de bolas de Berlim, pintem-lhe o cabelo de branco e ficará igual à Catalina Pestana.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Gaston Bachelard / Leon Tolstói



Eu sei. É tão fácil quanto absolutamente gratuito pegar em dois homens de barba comprida e branca e dizer que são parecidos. Poderia, sem dúvida, pegar no Pai Natal e no Dr. Pinto da Costa que o resultado redundaria no mesmo.
Os asiáticos de olhos em bico também são todos parecidos. E nós ocidentais seremos, porventura, aos olhos dos olhos em bico, todos iguais. Isto não deixa de me sugerir que as semelhanças estão mais naquele que vê do que nos objectos medidos. Há pessoas que não encontram semelhanças em nada. Para elas tudo é diferente. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E seria de facto mais interessante se assim fosse. A natureza esforça-se e mata-se pela variedade, é certo. Mas, como pensava Darwin - senhor de barba branca e comprida que teria também aqui o seu lugar - essa luta pela variedade, que é a luta pela sobrevivência, dá-se menos entre espécies diferentes do que no seio da própria espécie. É talvez por isso que nos andamos a comer uns aos outros.

Carlos Queiroz / Diego Maradona



Calma. Não estou a sugerir que o Queiroz e o Maradona sejam parecidos. Tanto mais não fosse, os trezentos quilos que os separam logo haviam de me desmentir. Mas vou abrir aqui uma excepção para vos alertar para outras semelhanças que não as físicas.
Até hoje olhávamos para o Queiroz como o gentil-homem, o distinto e nobre cavalheiro que entorpecia os jornalistas mais ávidos de escândalo, o aristocrata aniquilador de raves e o fidalgo protector do reino e das cinco quinas. Nos antípodas estava o Maradona de Kusturica; o génio da bola que reprimia a sua condição divina com os mundanos vícios de todos os heróis: ele havia álcool, drogas, mulheres, dopings, insultos, bordoadas, inimigos de estimação, gratuitidade, enfim, tudo aquilo que imortaliza os cadáveres adiados que procriam.
Antes de Queiroz, vozes havia que declaravam: o Scolari representará o que de mais nobre há no espírito português. Pois viu-se. Tentativa de agressão num calmeirão sérvio cujo nome ninguém consegue pronunciar. E isto para quê? Para defender um cigano. Se o Frodo entrasse num campo de batalha para defender o Aragorn não teria incorrido em mais grotesco equívoco.
Mas eis que hoje sabemos, enfim, que Queiroz incarna o que de melhor há na espiritualidade lusa. E isso equivale a dizer que Maradona é mais português do que a generalidade dos políticos e comentadores que ocupam o horário nobre da SIC Notícias e da RTP-N. Porque dizer aos médicos da ADoP que fossem controlar a cona da mãe do Luís Horta é, não incorporar a personalidade de D. Sebastião mas, mais importante, chamar a si o que de melhor há de Maradona. Creio mesmo que nem o próprio seria capaz de uma tão brilhante declaração. Depois disto, se o Queiroz não é o seleccionador de todos os portugueses, eu quero ser espanhol. Ou argentino.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mezut Özil / Serge Gainsbourg




Será recorrente a apresentação de personalidades ligadas ao planeta do futebol. O Luís Freitas Lobo chama-lhe assim: planeta, ao invés de mundo. Ora, como nada acontece por acaso, e porque as escolhas obedecem a causas que se interligam numa cadeia infinita porque também inconsciente, gostaria de reflectir acerca deste «planeta». Porquê planeta e não mundo?
Em primeiro lugar porque mundo é também um adjectivo: aquilo que é puro e limpo. Perceber-se-ia, à partida, a lógica elementar que acompanha esta terminologia. A pureza no futebol seria contranatura, absurda, impossível, ilógica, irracional, enfim, seria a própria negação do jogo, o seu vazio, o seu buraco negro. E se fosse possível sermos sumamente subjectivistas, ainda assim, a única pureza que encontraríamos no futebol seria a raiva com que espumamos diante dos nossos adversários. É aí que reside toda a potência do jogo.
Freitas Lobo chamou-lhe planeta. Convenhamos que é uma palavra menos rica em significados. Ela remete-nos mais para a física do que para a metafísica. Endereça-nos para a mecânica. O mundo traz consigo uma espessura ficcional que o planeta dissolve. E paradoxalmente, não sei se por obra das obras de ficção científica, a palavra planeta não pode deixar de nos sugerir a vida alienígena. Pois é disso que o futebol anda cheio e é nisso que o futebol se parece com tantas coisas. A comprová-lo: as orelhas e olheiras do Ozil e do SG.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Miguel Ângelo / Alexander the Great



Desconfio sempre dos extremos. Os Delfins outra coisa não conheceram durante a sua carreira. Em meados de 90 eram os melhores do mundo: o Rui Fadigas fazia slaps como ninguém, as letras do Miguel Ângelo eram profundas como a Boca do Inferno e o António Cunha era uma autoridade digna de figurar ao lado de outros monstros da capital do Império, particularmente daqueles que haviam fundado a União Lisboa.
Depois surgiu a catrefada de humoristas que se conhece desde o «Levanta-te e Ri» e, subitamente, os Delfins foram expatriados. Eram de Cascais e estavam longe do marxismo de caviar. Betos lhes chamaram e gostar deles passou a figurar na lista de indecências e parolices concebida pelos vitorianos cá do burgo. Se querem um exemplo de como o poder se manifesta mais nos processos do que nos sujeitos, aí o têm. Esta coisa de persistir em adequar os gostos dos outros aos nossos não é feitio; é mesmo defeito. E parece não haver como escapar. Se anuímos é porque sim, se não anuímos é também porque sim.
Os Delfins não deixam de ser uma Laranja Mecânica: não escaparam aos processos mais extremados. Desfrutaram disso mas também padeceram dos mesmos efeitos.
Passado algum tempo de toda essa convulsão, digam-me: valeu a pena?

domingo, 18 de abril de 2010

As máquinas de James Cameron



Os objectos são tão ou mais importantes nas nossas vidas do que algumas pessoas. E não falo da utilidade decisiva de determinados utensílios na satisfação dos desejos; ou não falo apenas disso. Refiro-me também à relevância de tudo quanto nos rodeia no que diz respeito à determinação daquilo que somos. A cultura não é, por isso, apenas aquilo que se cria mas também as recriações que se geram na nossa interacção com as coisas.
O que nos dizem então estas maquinetas do James Cameron? No filme Aliens, Ripley socorre-se de uma máquina – há boa maneira do desenrasca - para lutar contra a natureza. Por obra do acaso a máquina estava ali; Ripley sabia manobrá-la e encontrou-lhe uma utilidade desconhecida. No Avatar, a máquina é concebida com o intuito preciso de chacinar quem se lhe oponha.
Nos dois filmes as máquinas estão do lado do Homem. A diferença é esta: quando o Homem aparece como vítima, é uma máquina colocada nas condições mais aleatórias que o salva. Quando o Homem é o algoz, a máquina pré-concebida e cientificamente projectada com um determinado intuito não lhe vale de nada.
Parece que o Homem está destinado a ser bem sucedido apenas quando não se dá ao trabalho de projectar as coisas. Ninguém o diria: James Cameron é o realizador mais calculista da história de Hollywood e, aparentemente, não tem razões para se queixar.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Barroso / Volkan Demirel



Há coisas que se fazem com a consciência que isso que se faz nos torna dúbios, falhos, malogrados, frustrados, alienados, o que seja. Não é o caso do futebol. Eu gosto de futebol por variadíssimas razões, de entre as quais a beleza do jogo não é, certamente, a mais forte. Em primeiro lugar, se não houvesse clubes contra os quais pudéssemos descarregar todas as nossas frustrações e os nossos ódios bacocos, o futebol não se tinha transformado na poderosa indústria que efectivamente é na actualidade. Em segundo lugar, o futebol ainda é - para além dos impulsos sexuais e dos momentos íntimos na casa de banho – aquilo que nos arroja contra o chão, aquilo que mais intensamente nos recorda a nossa vil condição terrestre. Num mundo de luvas brancas, batas, laboratórios e encerramento nervoso das tascas, ainda há quem assuma, sem assombros, a sua condição animalesca. O futebol torna-nos mesquinhos, irritadiços, invejosos, rústicos, revanchistas, impetuosos, crianças; o futebol torna-nos nisso tudo que somos em circunstâncias muito diferentes. Mas nada é assim tão diferente do futebol. Tenhamos, como exemplo, o mundo académico. Também aí há intrigas, egos feridos, grupos, tendências, vacas sagradas, estratégias de marketing; também aí as pessoas marcam golos e sofrem frangos, magoam os outros, humilham o adversário, expõem as suas fraquezas; também aí se classifica, se desce de divisão, se glorifica e se fazem prognósticos. Pois bem, mas o que distingue o futebol de todas as conveniências dos jogos sociais são homens que não se inibem de justificar as más exibições com diarreias de última hora.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tom Waits / Ron Perlman



Eu, ao contrário da Catarina Furtado e daquelas pessoas que têm muito bom gosto, não gosto da voz do Tom Waits. Talvez gostasse se tivesse algum apreço literário por histórias do mar e proezas de piratas. É que quando o oiço cantar, tenho a impressão de estar diante de algum náufrago perdido entre garrafas de rum e mastros despedaçados. Ora, eu nunca fui em grandes epopeias marítimas e Sexta-feira (um seu criado) só mesmo em Albufeira, como canta o Reininho.

É sobejamente conhecida uma história de Gavin Bryars e Tom Waits. Quando vivia em Londres, Bryars trabalhava num filme de Alan Power sobre a vida dos mendigos na cidade. Um dia gravou uma canção entoada por um desses mendigos. O título era «Jesus Blood Never Failed Me Yet». Aparentemente, e ao contrário do que era habitual nesta recolha de canções de rua, o velho mendigo – que costumava entreter a equipa de filmagens com malabarismos de chapéu - não estava embriagado. Bryars achou a melodia tão interessante que, um pouco por acaso – como sempre acontece nestas coisas – acabou por criar um loop orquestrado do tema.
Obviamente não me vou dedicar aqui ao exercício semiótico acerca do valor estético da canção. Se o caríssimo leitor pretender ler coisas interessantes, encaminho-o para os blogs de José Pacheco Pereria, Pedro Mexia ou Daniel Oliveira. Aqui, o que é relevante, é que, anos mais tarde, Gavin Bryars convidou Tom Waits para cantar a música. É fácil de entender porquê: Tom Waits é mais genuinamente mendigo do que qualquer outra pessoa que habite o lugar mais esconso das grandes metrópoles.

Há certos convites que não são propriamente elogiosos. Quando li «O Nome da Rosa» já havia visto, em criança, o filme de Jean-Jacques Annaud. Confesso que não me foi difícil conceber, através da imaginação, os rostos mais ou menos vulgares de certos monges. Mas no que respeitava aos mais feios, a minha memória do filme sempre me atraiçoava. No caso de Salvatore então era-me absolutamente impossível desligar-me da figura de Ron Perlman; o papel assentava-lhe que nem uma luva.
O que pensarão os actores quando alguém vai ter com eles e lhes diz: «Olhe, nós precisamos de um actor para protagonizar o papel de um corcunda, de um feio, de um monstro, de uma aberração, o que seja, e lembramo-nos de si»? Pior ainda é saber que são os próprios actores quem, conscientes das suas capacidades, não se inibem de concorrer a determinados castings.
Mas o contrário também acontece: Mourinho já disse que queria o George Clooney a protagonizar um filme sobre a sua vida; Conan O’Brien exigiu Tilda Swindon. O meu actor de eleição para interpretar a minha pessoa, infelizmente, já faleceu: dava pelo nome de John Holmes.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Orson Welles / Andy Richter



Fazendo uma breve pesquisa pela Wikipédia, ficamos a saber que Orson Welles foi adepto do Botafogo. É isto o que verdadeiramente importa saber na vida de um dos mais geniais realizadores de cinema. Os nossos primos do outro lado do Atlântico, não contentes com a afirmação peremptória de que Deus é brasileiro, ainda nos atiram esta à cara: «Orson Welles era do Botafogo». Não importa saber se o era ou não. Esta afirmação pura e simples é tanto mais interessante quanto mais irrelevante se torna saber se o realizador sequer gostava de futebol. Já Marcel Proust escrevia - na obra «Em Busca do Tempo Perdido» e indicando as opiniões que a sociedade mantinha acerca de Swann - que as pessoas carregam consigo as várias personalidades forjadas pelas perspectivas que os outros construíram sob o signo das convivências e das conveniências sociais. Stendhal corroborava esta ideia ao afirmar que "Um homem pode alcançar tudo na solidão, excepto um carácter". É talvez por isso que nos interessamos tanto pelo que os outros pensam de nós; porque tudo o que seja dito pelo outro nos soará sempre a novidade e confirmará aquilo que somos. E apesar de Alain de Botton sugerir que o olhar dos outros é um espelho reflectindo imagens maiores ou menores do que o original, tenho para mim que os outros nunca pensam tão bem ou tão mal de nós quanto somos tentados a crer. Há um exemplo recente que comprova o quanto um acontecimento pode influenciar a nossa opinião acerca do que quer que seja. Todos caímos no erro de atribuir à personalidade de Conan O’Brien o facto comezinho de haver injustiças que se justificam pelos números. Desde então ainda não conseguimos olhar para ele sem que essa ideia de repulsa pela iniquidade nos não tolde a visão. No que me toca, estou a tentar libertar-me disso; disso e do facto de Orson Welles ter sido adepto do Botafogo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Jon Stewart / Jorge Jesus



Este blog é redutor? Sim.
Para este blog, as personalidades existem apenas na medida em que lhes pode ser atribuída uma semelhança física com outra personalidade exposta às mesmas condições? Sem dúvida.
Não há qualquer interesse no que se escreve neste blog? Admito.
O autor deste blog importa-se com isso? Nadinha.

O autor deste blog defende que toda a gente, algum dia, necessita de um lugar onde o politicamente correcto, as convenções sociais, as irrepreensibilidades éticas e o semideísmo podem ser mandados às urtigas. Que, na medida do possível, se não insulte ninguém gratuitamente, eis ao que se propõe. É claro que nunca se saberá se o Pedro Abrunhosa considera um insulto ser comparado ao Homem Invisível. Contudo, e assumindo a impossibilidade de saber se os outros são ou não são vidrinhos de cheiro, o anonimato nunca servirá para insultar quem quer que seja; exceptuando, talvez, instituições, tribos, sociedades e quejandos ajuntamentos.
É um pouco por isso que eu gosto do Jorge Jesus e não vou muito à bola com o Stewart. Se no caso do português o politicamente correcto é, como diria o próprio, “uma treta”, para o americano é um modo de vida. O género incensurável da comédia política é o que de mais íntegro e inatacável se pode fazer. Como nos opormos à crítica à corrupção, à guerra, à baixa política e ao maquiavelismo? É como discutir com alguém que, brincando, vai dizendo o que bem lhe apetece.
Pelo contrário, para dar pontapés na gramática, são necessários tomates. É preciso tê-los no sítio para ironizar com o fair-play dos outros. O Jorge Jesus tem aquela postura à mete-nojo dos antigos; masca chiclete e mostra mais vezes a língua do que o bom senso admite. É certo que tem despertado o discurso mais ou menos saudosista e salazarento do «subiu a pulso» ou do «subir-a-pulsismo»; é certo que tem justificado o revanchismo de muitos treinadores e comentadores da treta que, menos secretamente do que desejariam, odeiam o José Mourinho e todos os seus clones mais ou menos bem sucedidos. Mas como de más interpretações está o inferno cheio, continuo a dizer, ao jeito maniqueísta (porque todos se recusam a sê-lo), que prefiro, de longe, o português ao americano.