quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tom Waits / Ron Perlman



Eu, ao contrário da Catarina Furtado e daquelas pessoas que têm muito bom gosto, não gosto da voz do Tom Waits. Talvez gostasse se tivesse algum apreço literário por histórias do mar e proezas de piratas. É que quando o oiço cantar, tenho a impressão de estar diante de algum náufrago perdido entre garrafas de rum e mastros despedaçados. Ora, eu nunca fui em grandes epopeias marítimas e Sexta-feira (um seu criado) só mesmo em Albufeira, como canta o Reininho.

É sobejamente conhecida uma história de Gavin Bryars e Tom Waits. Quando vivia em Londres, Bryars trabalhava num filme de Alan Power sobre a vida dos mendigos na cidade. Um dia gravou uma canção entoada por um desses mendigos. O título era «Jesus Blood Never Failed Me Yet». Aparentemente, e ao contrário do que era habitual nesta recolha de canções de rua, o velho mendigo – que costumava entreter a equipa de filmagens com malabarismos de chapéu - não estava embriagado. Bryars achou a melodia tão interessante que, um pouco por acaso – como sempre acontece nestas coisas – acabou por criar um loop orquestrado do tema.
Obviamente não me vou dedicar aqui ao exercício semiótico acerca do valor estético da canção. Se o caríssimo leitor pretender ler coisas interessantes, encaminho-o para os blogs de José Pacheco Pereria, Pedro Mexia ou Daniel Oliveira. Aqui, o que é relevante, é que, anos mais tarde, Gavin Bryars convidou Tom Waits para cantar a música. É fácil de entender porquê: Tom Waits é mais genuinamente mendigo do que qualquer outra pessoa que habite o lugar mais esconso das grandes metrópoles.

Há certos convites que não são propriamente elogiosos. Quando li «O Nome da Rosa» já havia visto, em criança, o filme de Jean-Jacques Annaud. Confesso que não me foi difícil conceber, através da imaginação, os rostos mais ou menos vulgares de certos monges. Mas no que respeitava aos mais feios, a minha memória do filme sempre me atraiçoava. No caso de Salvatore então era-me absolutamente impossível desligar-me da figura de Ron Perlman; o papel assentava-lhe que nem uma luva.
O que pensarão os actores quando alguém vai ter com eles e lhes diz: «Olhe, nós precisamos de um actor para protagonizar o papel de um corcunda, de um feio, de um monstro, de uma aberração, o que seja, e lembramo-nos de si»? Pior ainda é saber que são os próprios actores quem, conscientes das suas capacidades, não se inibem de concorrer a determinados castings.
Mas o contrário também acontece: Mourinho já disse que queria o George Clooney a protagonizar um filme sobre a sua vida; Conan O’Brien exigiu Tilda Swindon. O meu actor de eleição para interpretar a minha pessoa, infelizmente, já faleceu: dava pelo nome de John Holmes.

1 comentário:

  1. Curiosamente fiquei com uma dúvida... a escolha recaída sobre o actor John Holmes deriva dos conhecidos transtornos psicológicos ou se pelo vício em drogas pesadas? Até porque não me ocorre mais nenhum motivo. Mas uma vez que o autor do blog é "mesquinho, falho, anedótico, ridículo como os demais"...convenhamos que o actor Michael Cera seria uma óptima escolha. Ou quiçá…o Adam Sandlerv?

    ResponderEliminar